Dica de livro e encerramento de projeto com criancas em comunidades pacificas no Rio - Sexta dia 13/12

“Seu conto é a nossa história”
Sesi Cidadania encerra projeto de  oficinas de literatura e expressão criativa para 200 crianças de 11 comunidades pacificadas com evento na ABL e na Firjan, na sexta-feira, 13/12. Projeto resultou no livro “Onde eu olho dá para ver”

Trabalhar a identidade, a autoestima, a inteligência emocional, a cidadania e a confiança de crianças de 11comunidades pacificadas do Rio por meio da leitura, da literatura e de tudo o que a arte lhes permite ser. Esse foi o objetivo do projeto Seu conto é nossa história (Programa Sesi Cidadania do Sistema Firjan) que será encerrado na próxima sexta-feira, 13/12, a partir das 10h, na Academia Brasileira de Letras (ABL) e na Firjan, com o lançamento do livro Onde eu olho dá pra ver.

Onde eu olho dá pra ver traz frases poéticas e ilustrações das crianças de oito a 12 anos que participaram de 22 oficinas conduzidas por três meses pelo jornalista e escritor Márcio Vassallo, com o apoio das especialistas em literatura para a infância Rona Hanning e Carolina Sanches, do Instituto Ler é abraçar. As comunidades escolhidas foram Santa Marta, Alemão, Cidade de Deus, Tabajaras, Borel, São Carlos, Morro Azul, Andaraí, Formiga, Macacos e Providência. Mais de vinte auxiliares de biblioteca integraram a equipe, que trabalhou em bibliotecas e salas de aula.

O evento de encerramento do projeto é gratuito. Às 10h, na ABL, falam a presidente da Academia 
Ana Maria Machado e o presidente da FIRJAN, Eduardo Gouvêa Vieira. Em seguida, crianças das comunidades participam de uma leitura do livro com Márcio Vassallo e da sessão de autógrafos.

“As frases são bonitas, surpreendentes, emocionantes, engraçadas, perturbadoras, com uma estética profundamente encantadora. A poesia serve para que essas crianças se descubram cada vez mais capazes de reparar beleza e encantamento onde a grande maioria das pessoas se acostumou a ver só desamparo, indiferença, feiúra e violência. Quando elas se flagram capazes de escrever, sem medo de errar, de desaprovações, de não conseguirem se expressar, quando percebem que são criativas, sensíveis e talentosas, apesar de tudo o que tantas delas passaram a vida toda escutando, elas sentem que podem ser autoras das suas próprias histórias, dos seus próprios destinos, escolhas, dos seus próprios passos, não importa onde estejam”, diz o autor.


Encerramento do projeto “Seu conto é a nossa história”  e lançamento do livro Onde eu olho dá pra ver
Dia/hora: 13 de dezembro, a partir das 10h
Locais: Academia Brasileira de Letras (ABL) – Av. Presidente Wilson 203, Castelo –3974-2500
 / Firjan - Av. Graça Aranha 1, 4º andar, Centro - 2563-4455.
Entrada franca


Trechos inéditos de histórias vividas pelo autor nos encontros em cinco comunidades:  
No Alemão
Na comunidade Fazendinha, que faz parte do Complexo do Alemão, pedi às crianças que me dissessem o que viam de mais doido e bonito, quando olhavam por dentro de um caleidoscópio, que junto com elas eu passei a chamar de pega olho. Depois dessa dinâmica, a Jéssica me disse que gostava de olhar o Pão de Açúcar lá da sua casa, usando um par de binóculos que ela tinha. “Quando olho para o Pão de Açúcar, balanço a minha mão para um lado e para o outro (a Jéssica me mostrou esse gesto, fazendo o movimento de uma onda), balanço a minha mão de um lado para o outro, enquanto olho pelo binóculo. É assim que eu consigo olhar o Pão de Açúcar, em alto mar, dentro da minha casa”, ela me contou. “Você também pode fazer isso na sua casa”, me sugeriu a menina, antes de voltar para a sua cadeira. Assim, olhei sem pressa para a Jéssica depois que ela se juntou de novo às outras cri anças, balancei os meus óculos com as mãos, para vê-la em alto-mar, e descobri que olhar para a Jéssica é ainda mais bonito que ver o Pão de Açúcar.

No Morro do Andaraí

No Morro do Andaraí, coloquei algumas músicas instrumentais para compor um exercício de relaxamento que fiz com as crianças, para provocá-las a criar. E em determinado momento, ao ouvir Por una cabeza, do Carlos Gardel, música tema do filme Perfume de mulher, Jorge Matheus comentou comigo com naturalidade: “Eu não conhecia esse tango, Márcio. É bem bonito. Gosto muito de tango”. Então, perguntei como é que ele tinha começado a gostar de tango, e o menino me respondeu que havia aprendido a dançar, com as aulas que teve na comunidade.
Saí do Andaraí pensando em quantos meninos de Copacabana, do Leblon, de Ipanema ou da Barra da Tijuca, por exemplo, conhecem e amam tango. Será que são muitos? Isso me faz pensar mais uma vez que beleza realmente não tem geografia, e que de fato é possível trabalhar a identidade de crianças e jovens, a possibilidade que cada um deles tem de fazer as suas próprias escolhas e ter uma impressão digital no pensamento, incendiando-os no melhor dos sentidos, por meio da arte, não importa onde morem, ou em que colégio estudem.
No táxi, voltando para casa, enquanto o motorista elogiava a educação de uma passageira que ele havia acabado de transportar, eu pensava numa frase que o Manoel de Barros me disse certa vez numa entrevista: “Hoje em dia o que era para ser normal se tornou extraordinário”. É isso mesmo, Manoel. A educação da passageira surpreendeu o taxista da mesma forma que o Jorge Matheus e tantas outras crianças me surpreenderam no Andaraí. Era para tudo isso ser normal, mas se tornou extraordinário. Nesse sentido, disponibilizar para todos o que há de mais arrebatador na literatura, no cinema, na música, nas artes plásticas, enfim, disponibilizar a arte e a cultura em geral, seduzindo-os para a imaginação e o pensamento, sem cobranças nem pressões para chegar a resultados, é uma forma de entrar no coração das pessoas, para que elas aprendam cada vez m ais a se sensibilizar com os outros, com elas mesmas, com tudo o que as cerca. Jorge Matheus é mais uma prova preciosa dessa óbvia constatação.

No Borel
No final da última oficina que fiz no Morro do Borel, o Matheus, de nove anos, me entregou um desenho que ele fez da comunidade, junto com uma descoberta sua. “Minha imaginação foi que quando eu forço a vista eu vejo duas coisas. Tipo: tem um bombom na minha frente, eu forço a minha vista e vejo 2 bombons”. Fiquei lendo e relendo o texto do Matheus, com ele parado na minha frente, com aquele seu riso tão interminável e aquele seu boné tão exibido. Então, fiquei lendo o que o menino escreveu, olhei para ele e forcei a minha vista para ver dois garotos encantadores. Não consegui. Só vi um Matheus mesmo. Único, raro, indivisível. Afinal, saber forçar a vista não é para qualquer um, não. É um dom, uma vocação, um aprendizado permanente. Preciso praticar mais, preciso praticar mais.

No Santa Marta
A última oficina no Morro da Santa Marta, reservada para que as crianças escrevessem, foi aparentemente um caos. A maioria delas se levantava e sentava oitocentas vezes, como se eu não estivesse ali, brincando, brigando, brincando de novo, pulando e correndo de um lado para o outro, sem freio, numa agitação desembestada, numa atropelo de risos, vozes, gritos e ruídos sem fim, em meio aos incontáveis pedidos de silêncio e obediência imediata feitos pelos auxiliares do Sesi e pelas professoras que naquele dia trabalhavam comigo no projeto. No meio de tudo isso, eu falava no ouvido de cada uma das crianças e as provocava, pedindo que me dissessem o que só elas viam e que ninguém mais era capaz de ver. Foi quando percebi que, no meio de todo aquele caos, as crianças estavam se sentando e escrevendo. Mesmo aquelas que demonstravam mais inquietude e mais agitação, mesmo elas conseguiam ter a lucidez necessária para criar. Depois fiquei sabendo que, antes da oficina, as crianças tiveram uma aula de educação física na mesma sala de aula onde trabalhamos. Fiquei rindo sozinho e passei a achar que, na verdade, elas estavam pouco agitadas. Mas o fato é que as crianças produziram um bocado. O Santa Marta foi uma das comunidades que mais produziram. E saí de lá cheio de frases poéticas. Difícil citar poucas criações no meio de tantas, mas vamos lá. A Raíssa, por exemplo, revelou o perfil de uma personagem irresistível. “Vejo uma menina meio parda, meio branca, meio morena, com mil olhos, e todos os olhos dessa menina têm cada cor do mundo”. Por sua vez, o Peterson achou uma chave para escancarar poesia dentro dele. “Madrugada abriu a fechadura e claro tomei banho”. E a Marcela Thais apontou um novo caminho para quem gosta de mergulhar numa bela imagem. “O bico do papagaio se abria e a gente sabia o degr au para chegar no mar”. Naquela ta rde, desci a ladeira da Santa Marta apurando o meu ouvido para chegar no mar. Não escutei o papagaio da Marcela, que é só dela. Mas passei o dia todo de ouvido arreganhado para a beleza. 

Na Cidade de Deus
Quando cheguei para o encontro final na Cidade de Deus, fiquei triste por saber que o Lucas tinha trocado a minha oficina por uma vaga na aula de basquete do professor mais admirado da comunidade. Tudo bem, claro, como competir com a magia de uma aula de basquete bem dada? Não deu para mim, mas perdi feliz. Até porque, lembrei que em nosso primeiro encontro o Lucas fez várias cestas de três pontos com as palavras. No final desse encontro, quando perguntei o que ele via e que ninguém mais conseguia enxergar, o menino me disse na hora: “O que eu vejo e mais ninguém vê? Ah, eu vejo o futuro”. E, futuros à parte, ou incluídos, na última oficina que fiz na Cidade de Deus, também li e escutei frases de tirar suspiro. Aliás, não li nem escutei só frases, mas também recebi declarações que vou guardar a vida toda. Eu me recordo agora da Roberta, que estava um pouco travada para desenhar e escrever. A Roberta foi uma das que mais criaram, até o último segundo da oficina. E no final, ela escreveu uma dedicatória para mim, numa folha, com uma revelação. “Hoje foi o dia mais feliz da minha vida”. E depois de um abraço, eu disse à menina que, naquele momento, ela estava diante do escritor mais feliz do universo. Antes disso, o Leoni me contou que tinha adorado criar um castelo com pista de skate dentro. E a Caroline escreveu tanto que fez uma lista de achados seus: um sol pendurado no varal, uma pipa de pedra, um tempo que não passa nunca, uma menina com cabeça de planeta. “O lugar onde eu me sinto uma fada é na minha laje”, também escreveu a Caroline. E eu disse para ela: Caroline, não importa o que você faça na sua vida. O importante é que você lembre que é poeta e sempre será. Poeta é quem olha para tudo com olho de beleza e descoberta, e você sabe fazer isso como poucos, eu disse para ela. Dep ois, a Caroline ainda escreveu mais um bocado de lindezas, sem parar. E antes de nos despedirmos, ela me deu uma folha em que dizia: “Márcio, eu gostei muito do nosso encontro. Um beijo, Caroline Laranjeira”. E embaixo do seu nome, bem embaixo do Caroline Laranjeira, estava escrito poeta, para que eu também lembrasse sempre dela e a reconhecesse de primeira. Como se eu pudesse me esquecer de você, Caroline.

Márcio Vassallo nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de dezembro de 1967. Jornalista e escritor, faz palestras e oficinas, há mais de dez anos, em todas as regiões do Brasil, convidado por empresas, universidades, associações, pelo Proler (Programa Nacional de Incentivo à Leitura, da Fundação Biblioteca Nacional), ou por Secretarias de educação e de cultura, escolas, seminários de educação e feiras de livros. Por conta desses compromissos, já se apresentou, até hoje, nos seguintes estados: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Brasília, Amazonas, Roraima, Santa Catarina, Paraná, Paraíba, Sergipe e Pernambuco.

Mais informações sobre o autor e sua trajetória acesse aqui.

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