Homenagem ao Poe - TerrorZine - O Gato Preto

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Editorial

imagePor que Edgar Allan Poe (1809-1849) escreveu o conto "O Gato Preto" (1843)?
Porque certamente ele sabia que num período da Idade Média surgiram boatos de que os gatos pretos eram companheiros fiéis de terríveis bruxas. Naquela época o negócio foi tão sério, que o papa Inocêncio VIII incluiu estes pobres (?) felinos em sua lista de seres
hereges que deveriam ser perseguidos pela Inquisição. Algo que ecoou pelos séculos, por isso temos medo e associamos os gatos pretos com o azar. Afinal, é impossível imaginar uma bruxa sem um gato preto perambulando ao seu lado.


No meio literário, Poe foi e ainda é o principal influenciador do meu trabalho no mundo da literatura, do qual tive o prazer de organizar, juntamente do escritor Maurício Montenegro, o livro "Poe 200 Anos – Contos Inspirados em Edgar Allan Poe" (All Print, 2010).
Espero ainda produzir outros livros impressos relacionados ao grande mestre do horror, mas enquanto não surge a oportunidade, resolvi convidar um grupo seleto de autores para compor esta edição especial do TerrorZine, intitulada “O Gato Preto”, uma homenagem, claro, ao grande Edgar Allan Poe.
A bela capa desta edição foi elaborada pelo escritor e capista Marcelo Bighetti, amigo do qual, juntamente do escritor Daniel Borba, estou desenvolvendo vários trabalhos. Confesso que fiquei impressionado e arrepiado com o resultado final desta edição. Tive muito prazer em convidar cada autor e ler e diagramar cada um destes excelentes minicontos.

Espero que o leitor sinta o mesmo que senti ao ler estas páginas.


Boa leitura.
Ademir Pascale
Editor e Organizador

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Capa Gato Preto
Sumário

Cláudio Parreira (Cemitério dos gatos)………………………………........04 
Daniel Borba (Sete vidas)………………………………………………...05 
Danny Marks (Silêncio)…………………………………………………..06 
Duda Falcão (O Gato e o escritor)....................................................……..07 
Evandro Guerra (Centenas)........................................................................ 08 
Georgette Silen (As duas vidas de Plutão)............................................…....09 
Gian Danton (O olho do gato).................................................................... 10 
Gus Rimoli (O livro de Grael e os gêmeos)........................................……. 11 
Luciana Fátima (As cores da insanidade).....................................................12 
Marcelo Bighetti (Medo).............................................................................13 
Mauricio Montenegro (Uma visão)..............................................................14 
Miriam Santiago (O gato)............................................................................15 
O. A. Secatto (A efígie de Edgar)................................................................16 
Renato Alves (Encruzilhada macabra)....................................................…. 17 
Arte do Leitor (Conheça a arte do leitor TerrorZine)....................................18 
Dicas de Livros (Dicas de livros do TerrorZine)...........................................19 
Divulgue Conosco (Divulgue com quem realmente entende do assunto)........ 21 
Créditos (E-mails, Twitter dos editores e créditos finais)..............………….22

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Cemitério dos gatos
Cláudio Parreira


Já faz algum tempo que percebo que aquele gato me observa. Ele é grande, 
preto, mas o que me incomoda de fato é o seu olhar: parece que sabe o que estou 
fazendo. 
Quando transformei o meu quintal num cemitério de gatos, não dei pela sua 
presença. Talvez tenha estado ali, sobre o muro, desde sempre. Os grandes olhos 
reprovadores pousados em mim. Não posso mais enterrar um maldito gato sequer que 
sinto o seu olhar às minhas costas. Como se fosse o meu juiz. 
Enterro gatos pelo simples fato de odiá-los. Nada mais. A esse preto, então, 
mais ainda. Por isso sua cova já está preparada. Só falta pegá-lo. 
Na manhã escolhida para o desfecho, não o encontrei sobre o muro. Senti raiva 
e, estranhamente, medo, uma sensação desconfortável. Subi eu mesmo para o lugar 
que ele costumava ocupar e vi a cova. Logo em seguida, dedos grossos agarraram meu 
pescoço e fui lançado violentamente contra o chão. A última cena que vi foi a do que eu 
pensava ser meu rosto, sorridente, lançando terra sobre o meu corpo. Antes de fechar 
os olhos, admiti, amargamente: eu era o gato.


Cláudio Parreira é escritor e jornalista. Foi colaborador da Revista Bundas, do
jornal O Pasquim 21, Caros Amigos online, Agência Carta Maior, entre outras
publicações. Participou de diversas coletâneas de contos e é autor do romance
GABRIEL, lançado recentemente pela Editora Draco. Mantém o BLOG PPC!
http://claudioparreira.blogspot.com/, e @ClaudioParreira é o seu perfil no Twitter


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Sete vidas


Daniel Borba

No começo, tudo que eu recebia dele era carinho e afeição. Não fui capaz de 
compreender como, de uma hora para outra, passei a ser tratado com desprezo e 
repugnância. Coisa de humanos. 
Então, eu me cansei. 
Sete vidas eu tinha. 
Perdi a primeira junto com um de meus olhos. A lâmina que feriu meu olho 
perfurou meu cérebro e tirou-me uma vida. Mas sobrevivi. 
Perdi a segunda ao ser cruelmente enforcado. Completamente sem aviso, fui 
agarrado, violentado e preso ao tronco de uma árvore. Mas sobrevivi. 
Perdi a terceira logo em seguida, após escapar da árvore e provocar o incêndio. 
Uma parede caiu sobre mim, esmagando-me. Mas sobrevivi. 
A quarta eu quase perdi na adega, pela lâmina de um machado. Por pouco, não 
a perco por falta de ar, após ter sido emparedado ao lado da mulher. 
Agora ainda me restam quatro vidas. Mais do que suficiente para me vingar 
daquele que traiu minha confiança. 
Afinal, ele só tem uma vida.


Daniel Borba é blogueiro e escritor. Já participou das antologias Metamorfose 2:
Os Filhos de Licaão (2011, Ed. Literata), e Passado Imperfeito (2012, Ed.
Argonautas). Organizou a antologia 2013: Ano Um (2012, Ed. Ornitorrinco).
Escreve sobre FC&F em seu blog: http://www.alemdasestrelas.com

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Silêncio


Danny Marks


Existem muitas coisas que você não sabe. A melhor de todas é: o quanto isso
é bom para você.
Alguns abominam o silêncio. Julgam que toda verdade é libertadora e que deve
ser proferida em altos brados, estampada em jornais e revistas, disseminada pelo ar
nas ondas da quimera eletrônica.
Pense.
Quantas vezes na sua vida uma verdade dura e cruel trouxe liberdade ao ser
proferida sem escrúpulos, sem medo?
Quantas mentiras solidárias realmente se tornaram insustentáveis?
Silêncio.
O silêncio é como um gato preto.
Os olhos faiscantes no escuro, o andar macio imperceptível. Ágil e flexível.
Imprevisível. Um susto, um salto. Rápido.
Infalível.
Existem muitas coisas que você não sabe, mas não fale sobre isso e nada lhe
acontecerá.
Porque o silêncio não comete erros.

Danny Marks é autor do Universo Subterrâneo (Ed Multifoco) e dOs Retratos da
Mente (na blogosfera) é professor de Técnicas de Redação e Literatura; formando
novos visionários para um mundo louco e criando novos loucos para mundos
visionários.
Se decidir quebrar o silêncio, mande email para dannymarks63@gmail.com e
aguarde a resposta aos seus atos.

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O gato e o escritor


Duda Falcão


Trevosos como a noite. Escuros. Sombras de dia. Manchas negras sobre os
telhados. Eclipses lunares. Leves. Sagazes. Astutos. Charmosos ao andar. Deveriam ser
carta de tarô. Dotados de sexto sentido. Aprendizes de bruxa. Afilhados de Bastet.
Esguios, belos e de ar místico. Boêmios e convidativos como na arte de Toulouse-
Lautrec. Assim é o bando negro da madrugada.
Caolho. Único. Especial. Emparedado. Doméstico. Lá está ele aprisionado com a
vítima. Denunciador do crime. Estopim da loucura do assassino. Pobre gato preto que
saltou da mente de Poe. Infeliz felino. Na literatura, o mais famoso do horror. Ficção:
alucinação de um poeta. Luz de uma mente brilhante. Inesquecível leitura fantástica
nas noites frias invernais. Um escritor e um gato. Um gato e Poe: faces distintas da
mesma moeda. Entre eles: um corvo!

Duda Falcão é escritor, um dos editores da Argonautas e um dos organizadores da
Odisseia de Literatura Fantástica.

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Centenas


Evandro Guerra


Há quem crê que gato preto seja sinônimo de mau agouro. Vânia tem motivos de
sobra pra contestar.
Naquela noite ventosa, o culto havia passado do horário habitual, já era mais
de 23 hs quando Vânia voltava sozinha pelas ruas desertas abraçada com sua Bíblia. De
repente, som de passos firmes ecoou em seus ouvidos. No que olhou para trás, avistou dois
homens com cara de poucos amigos. Sentiu que estava em perigo. Apressou o andar. Eles a
copiaram. Seu coração acelerou. Estava quase correndo agora. As casas ao redor estavam
fechadas e com as luzes apagadas. Sentiu-se como se estivesse sozinha na cidade com
aqueles dois.
Ao passar de frente ao cemitério, percebeu que a corrente que prendia o portão
estava frouxa, deixando assim um pequeno vão. Espremeu-se e adentrou. Para seu
desespero, a dupla também conseguiu passar pelo vão. Apavorada, a mulher correu entre as
sepulturas. Esbaforida, sem forças pra continuar, ela parou. Foi alcançada. Rindo, um dos
bandidos abriu o zíper da calça. Vânia passou a choramingar. Abraçou a bíblia e começou a
rezar.
— Deixa disso e venha cá mulher! — Bradou um deles, pegando-a pelo braço.
Neste momento, um miado fino se pode ouvir. Quando olharam na direção do som,
avistaram um gato preto por sobre uma lápide.
— Saia daqui, gato vira-lata! — Disse um deles e, sacou um revólver. Apontou e
atirou no felino. Este caiu por detrás da lápide. Os maus feitores riram, mas, no segundo
seguinte, o gato saltou e voltou a ocupar o lugar em que estava antes do tiro.
Espanto. Olhos arregalados. Incompreensão.
De repente, dezenas, dúzias, depois centenas de gatos pretos surgiram vindo das
sombras do cemitério. Todos tinham um brilho sobrenatural, amarelado nos olhos. Fizeram
um cerco nos humanos, no entanto, quando atacaram, se direcionaram apenas aos
bandidos. Disparos foram efetuados, contudo, nada podia salvá-los.
Enviados do céu ou do inferno? Isso Vânia não sabia, e tanto importava. Ela se
afastou e ficou por alguns segundos olhando aquele montueiro de gatos despedaçarem a
dupla de marginais a unhadas e mordidas. Os gritos deles decerto poderiam ser ouvidos por
quilômetros. Abraçada a sua Bíblia, Vânia deixou o local. No dia seguinte bem cedo, em uma
feira de animais abandonados, ela adotou um lindo gato preto já adulto. Satisfeita, ela o
carregava no colo como se carregasse um bebê, e nem viu quando os olhos do felino
adquiriram um brilho sobrenatural, amarelado.

Evandro Guerra é escritor e desenhista, pai de dois filhos.
Email: evandroguerra@ymail.com

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As duas vidas de Plutão

Georgette Silen


A ferida aberta pela maldade dos homens manchava de vermelho meu
pelo branco. Abandonado naquele beco, com o frio da noite se misturando ao da
morte, observava o lado de lá da vida, para onde iria em breve, quando,
descolando-se das sombras, outro como eu surgiu, de pelo negro e um olho
vazado, grande e elegante. Encarou-me, com um quê de sobrenatural. Não vivia
mais do lado de cá da vida — disse-me, lambendo os bigodes —, mas precisava se
vingar da maldade nela. Eu também. Selamos um acordo banhado no sereno, e sua
essência morta trouxe de volta a minha centelha. Levantamo-nos, negro e branco.
Duas mentes habitando um só corpo. Encontramos o homem que o outro procurava
num antro infame, embriagado. Com raiva nos deitamos sobre um barril de
genebra. O homem nos viu e, atraído ao extremo, decidiu-se a nos levar. O outro
em mim conhecia o caminho.
‘Meu nome é Plutão’ — se me apresentou ao chegarmos a casa. Com um
salto alcançamos o colo da senhora, que de imediato nos amou. E com nosso único
olho miramos o homem, que empalideceu.
‘Seu pavor está apenas começando’ — sussurrou Plutão, enquanto miei
deliciado...

Georgette Silen é arte educadora e professora de teatro. Escritora de fantasia, é
autora dos livros Lázarus (NovoSéculo, 2010), Apenas Uma Taça - Um Brinde ao
Mestre Stoker (Editora Estronho, 2011), As Crônicas de Kira e Fábulas ao Anoitecer
(Giz Editorial, 2012). Contatos: missgette@yahoo.com.br Twitter:
@georgettesilen

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O olho do gato


Gian Danton


Meu amor por Helena era doentio. Eu não me contentava em ser amado
por ela, queria tê-la total e exclusivamente para mim. Assim que casamos, passei a
exercer um tremendo controle sobre ela. Consegui separá-la dos amigos e da família.
Eu a proibi de sair de casa, pois a simples ideia de dividi-la com alguém era mais do
que meu egoísmo poderia suportar.
Helena passava os dias em casa, longe de tudo e de todos, devotada apenas
a mim. Ou quase.
Minha esposa tinha um gato ao qual dedicava todo o carinho que lhe era
negado por seu isolamento. Ele se ligou cada vez mais ele a ponto de não se separar
do animal asqueroso por um único minuto, a não ser quando eu o enxotava. Ela
então abaixava a cabeça, submissa e resignada, o que aumentava ainda mais o meu
ódio. Decidi matá-la, jogando-a da janela do prédio e o fiz.
Os vizinhos acreditaram em minha versão de que minha esposa se suicidara
em decorrência da depressão e eu estava certo de que também a polícia o faria.
Quem poderia imaginar que eu, um homem bem-sucedido, amigo do governador,
cometeria tal crime?
No entanto, o gato me olhava. Tentei matá-lo diversas vezes, mas era
paralisado por seu olhar acusatório. O seu olhar era um espelho que refletia meu
remorso, um espelho pronto a se quebrar em mil pedaços, como o vidro da janela.
O chão está se aproximando e começo a perder os sentidos, mas ainda
continuo a ver o olhar acusador.

Gian Danton é roteirista de quadrinhos desde 1989, sendo autor da premiada
graphic novel Manticore. Autor da série infantil Mundo Monstro (ed. Infinitum). Tem
participado de diversas antologias, entre elas Rumo à fantasia (Devir), Espectra,
Metamorfose II (Literata). Atualmente é professor da Universidade Federal do
Amapá.

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O livro de Grael e os gêmeos


Gus Rimoli


Olharam dentro da bacia. Recuaram com um pulo. Não quiseram se
certificar se os rostos distorcidos pela água agitada eram os seus próprios ou os dos
espíritos ancestrais invocados para lhes servirem, mas era certo que, antes de se
deitarem, o velho livro ficaria melhor dentro da caixa de madeira.
§
Cavaram com cuidado para não quebrarem o ovo. Foi inútil. Mas teria sido
de todo jeito, pois o fedor era típico. Consolaram-se, dizendo que não se poderia
afirmar, só olhando e cheirando, que o feitiço tinha falhado. Quanto ao embrião,
fosse ele ainda um simples pinto ou já um demônio da fortuna, era certo que, antes
da casca se partir, já estava morto há dias.
§
Seguiram os miados pelas vielas de terra, com bonecas sem cabeça e
carrinhos sem rodas espalhados. O local não era seguro, mas era difícil achar gatos
pretos à noite. Arriscaram. Afinal, o livro dizia que seus ossos cozidos dariam o
poder da invisibilidade. Os gritos do gato despertaram o sentinela armado. Não se
pode afirmar se o gato era de fato preto, tampouco se o feitiço teria funcionado,
mas era certo que, depois daquela noite, os gêmeos jamais foram vistos.

Gus Rimoli adora escrever! A literatura é um de seus maiores prazeres... e dentre
todos os seus prazeres literários, escrever mini-contos pro Terrorzine é o que mais
lhe satisfaz no momento!

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As cores da insanidade
Luciana Fátima


O vapor que escapava da boca, enquanto caminhava pela rua
deserta, denotava o frio daquela noite escura. A um olhar mais atento,
vislumbrou esferas verdes brilhantes no meio dos arbustos da praça
abandonada. A curiosidade venceu o medo e abaixou-se para encontrar, no
meio da escura pelagem, as duas esmeraldas cintilantes. Um instinto
protetor gritou alto em seu íntimo e envolveu o minúsculo bichano nos
braços. Estranha coincidência, pensou. O horóscopo da sexta-feira 13
dissera para tomar cuidado com o gato preto, mas nunca tivera tanta sorte
quanto naquele dia. Sem pestanejar, elegeu-o como o companheiro que
dividiria sua vida vazia. Dentro da kitnet, não encontrando lugar adequado,
decidiu colocá-lo para dormir em sua cama. Satisfeito e aquecido, o animal
permaneceu imóvel. Ao raiar do dia, não encontrou o pequeno entre as
cobertas e, de um salto, foi parar no teto. Antes da total dominação pelo
horror, do alto entreviu um rapaz nu com inexplicáveis e dementes olhos
verdes; horrendas garras e medonhos dentes pontiagudos, dilacerando seu
próprio corpo, em meio a uma poça de sangue que contrastava com o
branco do lençol.

Luciana Fátima é fotógrafa e escritora, nasceu em São Paulo. Mestra em
Comunicação, é coautora de “Diálogos com a Cidade”, projeto pelo qual publicou o
livro de fotografia & poesia “Carinhas(os) Urbanas(os)”. Possui contos em várias
antologias e em sites literários, sendo também autora do livro “Álvares de Azevedo:
o poeta que não conheceu o amor foi noivo da morte”
.

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Medo


Marcelo Bighetti


Após um banho relaxante Sillas joga-se em sua cama e, enquanto aprecia
o agradável perfume de seu desodorante recém aplicado, recorda o quão tumultuado
fora seu dia. Na escuridão do quarto contempla os brilhantes adesivos em forma de
estrela colados no teto. Ao olhar a constelação de Órion, sente uma presença a seu
lado que faz seu corpo arrepiar-se completamente. Um calafrio percorre sua espinha
e o terror toma conta de seu ser. Naquele momento de desespero, enquanto tenta se
mover, a escuridão torna-se densa e as estrelas não brilham mais. Seu coração bate
mais rápido.O esforço para tentar levantar-se e acender a luz o faz suar
intensamente. Em meio a esta luta, escuta o ruído de algo se arrastando ao lado da
cama. Um hálito quente penetra suas narinas quando em desespero total sente algo
tocar-lhe o braço. Um toque felino.
Não conseguiu gritar.

Marcelo Bighetti nasceu em 1968. Casado com Adriana desde 1995 é pai de quatro filhos.
Adora Star Trek, Astronomia e Física Quântica. Além de designer é leitor compulsivo desde
menino. Possui sete contos publicados. Seu blog www.marcelobighetti.blogspot.com

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Uma visão


Mauricio Montenegro


A moça sentada no meio fio usava um jeans justíssimo que realçava suas
curvas, uma camiseta com o desenho de um gato preto e tinha os olhos negros
sombreados de modo a destacar a palidez da pele. Era a única que estava dentro do
cordão de isolamento, então imaginei que poderia ser da família do casal que sofreu
o acidente. Detesto acidente com motos. Que diabos! Detesto qualquer tipo de
acidente. Mas os que envolvem motos são piores!
— Ei, Policial! — disse caminhando na direção dos corpos. — Tire essa moça
daqui e afaste essa multidão. Ele falou algo que não entendi e colocou as mãos na
cintura como um cowboy saído de algum filme de Sergio Leone. Dei de ombros
enquanto seguia em frente. Um bombeiro veio em minha direção.
— Duas vítimas chefe! Acidente frontal. Uma quebrou o pescoço. O caminhão
passou em cima da cabeça da outra.
Ouvi isso pelo rádio, disfarcei e não disse nada. Parece que hoje em dia todo
mundo gosta de repetir o que os outros falam. Os corpos já estavam cobertos, fiz
sinal para removê-los.
Estava ajudando a recolher um dos corpos quando percebi o jeans justíssimo,
uma camiseta branca com o desenho de um gato preto com olhos enormes e o nome
POE em letras góticas. Então entendi o que o outro policial havia dito. Ele me fez
uma pergunta: Que moça?

Mauricio Montenegro organizou em parceria de Ademir Pascale a Coletânea POE 200 Anos
– Contos Inspirados em Edgar Allan Poe (Editora All Print). Participou na Coletânea
Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens (Editora All Print) e na Coletânea Estranhas Invenções (Ed. Ornitorrinco). Ele mora em São Paulo com a esposa e um filho.

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O gato
Miriam Santiago


Estava no segundo ano da graduação de História quando ganhei um lindo
gato preto de aniversário. O gato era enorme e tinha olhos cor de mel,
impressionantes.
O gato, por sua vez, não me largava o tempo inteiro, era de irritar.
Estava numa noite fria de inverno quando eu comecei a pesquisar
sobre Bastet, a deusa gata da mitologia egípcia. A história me encantou e não notei
quando o gato estranhamente ficou me encarando e seus olhos, agora imensos e
profundos, me hipnotizaram. Fui me largando na cadeira, meu corpo ficando
pesado e minha mente divagando...
Não notei quando a bela mulher negra entrou e me levou para a cama. Ela
era maravilhosa e eu me senti em outro lugar, não era o meu quarto e nem minha
casa, era um palácio com muitos tapetes e cortinas brancas e estatuetas ornavam
o ambiente.
Acordei com o sol batendo em meu rosto. Estava exausto e com a energia
sugada.
— Você está horrível, o que aconteceu? — disse minha namorada segurando
duas garrafas de vinho deixadas no criado-mudo e apontando para os lençóis
rasgados.
Tentei falar-lhe, mas seria em vão. Olhei para o cesto em um canto do
quarto e lá estava ele, mas que na verdade era ela, a minha misteriosa gata preta,
que ocultava um segredo que só eu poderia compartilhar.

Miriam Santiago é jornalista, trabalha em Assessoria de Comunicação e é
formada em Letras. Publicou nos livros: “Livro Negro dos Vampiros”; “A Mulher
Japonesa Imigrante”; “Histórias de uma Noite de Natal”; “No Mundo dos Cavaleiros
e Dragões”; “Sobrenatural”; “Metamorfose II: Os Filhos de Licaão” e escreve para a
Revista TerrorZine. Selecionada para o “Momento do Autor”, da Prefeitura de
Santos, a ser lançado dia 20/5/2012.
Blog: http://miriammorganuns.blogspot.com.  Contato:
mirianmorganuns@hotmail.com/ miriansssantos@gmail

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A efígie de Edgar
O. A. Secatto
A memória de meu pai morto sempre me assombrou; desde pequeno. “A
única coisa de bom que seu pai fez foi você, Edgar”, dizia-me minha mãe. “Todo o
mal que ele pôde ele fez, meu filho. Ele buscou poder onde não devia. Mas
felizmente não encontrou.” Ele morrera quando eu tinha poucos meses. Eu estava
no Cemitério Velho com mais umas poucas pessoas; era o enterro de minha pobre
mãe, que me protegera de meu pai naquela noite em que ele morreu
misteriosamente. Mas os sonhos durante todos esses anos me revelaram que ele
sussurrou algumas palavras em meu ouvido numa língua estranha antes de ser
expulso por minha mãe. Sinto que algo dele vive mais em mim por causa daquelas
palavras. Isso me assusta, sempre me assustou. Mas agora, com minha mãe
morta, ainda mais. Ao voltar para o carro, senti algo roçagar minhas pernas. Um
gato preto. Ele tinha uma coleira, mas correu quando tentei ler-lhe o nome. Seguio
até uma cripta ali perto. Já entardecera, e a noite parecia engolir a alegria e a
vida que acompanhavam a luz do dia. Com muita hesitação desci as escadas e
entrei. Algumas velas acesas tremulavam e davam ao túmulo um ar macabro. O
gato começou a roçar os pés de uma efígie. No alto, a placa gravada no mármore
me deu um nome conhecido, o mesmo que estava na coleira. A porta se fechou
sozinha; as velas apagaram e levaram consigo a luz de minha sanidade. Na treva,
pude ouvir uma voz, a mesma dos meus sonhos. “Oi, filho.”

O. A. Secatto nasceu em Fernandópolis, São Paulo, em 1981. Publicou em vários
livros, entre eles Moedas para o Barqueiro, Jogos Criminais e Entrelinhas, da
Andross Editora, Poe 200 Anos: Contos Inspirados em Edgar Allan Poe e No Mundo
dos Cavaleiros e Dragões, da All Print Editora, e Metamorfose II, da Editora
Literata. Mantém o site www.oasecatto.com.br e o blog oasecatto.blogspot.com

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Encruzilhada macabra


Renato Alves


Gritei! A dor da bala metálica entrando em meu coração, foi imensa.
Perguntei-me na hora: — Por que em plena sexta-feira 13 fui passar nessa
encruzilhada? Ainda mais à meia noite? O cérebro começa a perder o foco. A
respiração falha. Lembro-me dos fatos que me trouxeram aqui, hoje. Minha
pequena experiência na vida impede de sair sozinho ou à noite. Entretanto, que
rebelde seria eu se não pulasse a janela sem que ninguém percebesse? Nem
minhas unhas, e muito menos meu afinado olfato, me ajudam agora. Sou
eternamente grato ao meu sensato e ingrato sentido de viver livre, mesmo que
com ele venha a aflição que estou sentido neste exato minuto. Outra bala penetra
em meu corpo; desta vez atinge a barriga. Meu coração irá parar em segundos,
meu cérebro está dando adeus à minha sanidade. Caio no chão, as forças físicas
foram embora. A última pergunta que me faço vivo: — Por que esse maldito
garoto, com gato branco nos braços, atingiu-me com o seu revólver? Será que ele
não sabia que essa era minha sétima vida? Os meus pelos pretos o fizeram sentir
medo? Ou foi meu bigode, ainda não grosso o suficiente, que não o fez temer-me?
A moto que me atropela alivia minha agonia de vez. Meu grito agora é de alívio,
com a chegada da morte.

Renato Alves realizou dois curtas-metragens “O Caminho” e “O Crime do Pacote”
que participaram de diversos festivais de cinema no Brasil (inclusive Festival de
Gramado) nos anos de 1997 e 1998. Trabalhou também na Redação da Revista de
Cinema e no Projeto Arrastão como professor de Cinema. Atualmente cursa
licenciatura em História. Twitter: @renatocinefilo Blog:
www.renatocinema.blogspot.com

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Arte do leitor
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Arte elaborada por Evandro Guerra. Email: evandroguerra@ymail.com

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Dicas de Livros

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POE 200 ANOS – CONTOS INSPIRADOS EM EDGAR ALLAN POE.
Ademir Pascale e Maurício Montenegro (org.)
“Poe 200 Anos - Contos Inspirados em Edgar Allan Poe” reúne 22 autores que comemoram o segundo centenário de nascimento do escritor Edgar Allan Poe. Os contos dessa coletânea são
inspirados nos contos e poemas como Berenice, O Corvo, O Gato Preto, A Queda da Casa de Usher, O Coração Delator e outros. Suspense, mistério e terror é o que o leitor encontrará
nesta obra organizada pelos escritores Maurício Montenegro e Ademir Pascale.

Valor: R$ 27,00
Páginas: 140 – All Print
Para adquirir o livro, acesse:
www.livrariacultura.com.br

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CONTOS OBSCUROS DE EDGAR ALLAN POE Bráulio Tavares (org.) Ilustrado pelo artista plástico paraibano Romero Cavalcanti, Contos obscuros de Edgar Allan Poe reúne 16 contos pouco conhecidos, traduzidos e publicados do mestre do conto, o norte-americano Edgar Allan Poe e acaba por atender a busca permanente do próprio Poe: a diversidade. É ele quem diz: “Se todos os meus contos estivessem agora à minha frente e eu
tivesse a incumbência de compor uma nova seleção, o critério que primeiro ocuparia minha atenção seria o de diversidade e variedade”.
Valor: R$ 45,00
Páginas: 216 – Casa da Palavra
Para adquirir, acesse:
www.livrariacultura.com.br

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CONTOS DE EDGAR ALLAN POE - AUDIOLIVRO
Em “O gato preto”, Poe apresenta um terror psicológico - Pluto, um apegado gato de estimação, aparentemente inofensivo, pode se tornar uma ameaça para o seu dono. E um homem atencioso e carinhoso pode se transformar em um ser atormentado e temível. Em “O corvo”, descreve a
amargura de um homem que perdeu sua mulher. E, com a companhia que lhe resta, expõe a solidão e a dor frente à inexorabilidade da vida. No final deste audiolivro apresenta-se uma biografia da vida de Edgar Allan Poe.
Valor: R$ 25,00
CD: 1h 20 min. – Universidade Falada
Para adquirir, acesse:
www.livrariacultura.com.br


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EDGAR ALLAN POE – HISTÓRIAS  EXTRAORDINÁRIAS
Nestes contos - selecionados e traduzidos por José Paulo Paes , Edgar Allan Poe (1809-1849) imaginou algumas das mais conhecidas histórias de terror e suspense da literatura, tramas que migraram da ficção direto para o imaginário coletivo do Ocidente. É o caso de “O gato preto”, a tenebrosa história de um assassinato malogrado, ou de “O poço e o pêndulo”, que apresenta uma visão macabra da ansiedade da morte. Pioneiro dos contos de mistério, como “A carta roubada” e
“O escaravelho de ouro”, Poe deu a seus personagens notável profundidade psicológica.
Valor: R$ 22,00
Páginas: 272 – Companhia de Bolso
Para adquirir o livro, acesse:
www.livrariacultura.com


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Divulgue Conosco
Não fique parado, divulgue com quem realmente entende do assunto:
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Divulgamos autores, livros, sites, blogs, editoras, sebos, livrarias, lançamentos, palestras, eventos, etc. Saiba Mais. Acesse: http://www.divulgalivros.org/shopping_dl.htm


Edgar Allan Poe (1809-1849)


                 Ademir Pascale                                                       Elenir Alves
                ademir@cranik.com                                              elenir@cranik.com
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