O Silêncio Ensurdecedor Que Meus Olhos Ouviram


             
            Marcos tinha quinze anos quando levou os amigos do colégio para nossa casa e fez do quarto dos fundos que estava desocupado há anos, o local de ensaio de sua banda de rock.
            A princípio não me opus à ideia do meu filho, pensando que deveria incentivar qualquer que fosse seu empreendimento. Sabia que existiam vários gênios da música perdidos pelo país, justamente pela falta de incentivo e apoio dos pais. Então, além de não me opor, convenci minha esposa Elaine a concordar com a ideia e deixamos o quarto à disposição dos cinco garotos, que apareciam todos os sábados pela manhã e só saíam dali quando a noite caía alta.

            Aqueles ensaios aconteceram por quatro longos anos. Os garotos cresciam e se aprofundavam no universo da música, harmonizando acordes cada vez mais complexos e sonoros em seus instrumentos. Geralmente os ensaios não nos incomodavam tanto, até porque, eu e minha esposa não costumávamos ficar em casa nos finais de semana.
            O problema foi a paixão pela música que brotou em Marcos, logo nas primeiras semanas de ensaio. Seus amigos só apareciam aos sábados, mas ele permanecia em casa todos os dias, afinando e ritmando sua bateria.
            Aqueles sons vindos do quarto dos fundos, altas horas da noite, causaram brigas homéricas entre mim, Marcos e sua mãe. Tentamos colocar regras, estabelecer horários para que Marcos cumprisse, mas sua paixão pela música ia além de nossos limites.
            Perdi a conta de quantas vezes entrei naquele quarto, vociferando como um animal selvagem irritado, ordenando silêncio, pois eu precisava dormir e acordar cedo para colocar a comida na mesa e pagar por seus estudos e regalias.
            Na maioria das vezes ele também se irritava e trancava-se em seu quarto. Algumas vezes ele fingia não me ouvir, não me ver, e continuava com o som estrondoso que tanto me incomodou por quatro anos inteiros.
            Acontece que nós sabíamos que o garoto tinha talento e que deveria ser incentivado. Mas aquele barulho vindo do quarto dos fundos nos incomodava tanto que a situação chegou ao limite, num período em que Marcos encontrava-se de férias e trancou-se no quarto dos fundos por uma semana inteira, saindo de lá apenas para ir ao banheiro e comer alguma coisa.
            A palavra silêncio nunca fora tão pronunciada naquela casa. A paz havia ido embora, levada pelos sons que saíam do quarto dos fundos. Elaine estava prestes a adoecer. Eu estava pronto para entrar naquele quarto e destruir os equipamentos de som e instrumentos que estivessem lá dentro. A ira acumulada em quatro anos de barulhos estonteantes, fez-se externar no momento em que meu filho saiu para encontrar-se com alguns amigos.
            Tomado por um sentimento de raiva avassalador, entrei naquele quarto desorganizado e me lancei ferozmente à cara bateria que eu mesmo havia comprado para meu filho. Em poucos minutos seus instrumentos estavam destruídos e eu me lancei ao sofá da sala, chorando e respirando com dificuldade, tomado pelo excesso de fúria.
            Algumas horas se passaram e eu me sentia um tanto assustado com minha atitude, quando meu filho chegou. Levantei-me disposto a discutir e colocá-lo dali para fora, como havia combinado com Elaine, minha esposa. Marcos precisava crescer e colocar sua vida em ordem, voltar para o mundo real. Pois ele já contava com dezenove anos se trancar durante uma semana inteira em um quarto tocando bateria, não o levaria a nada.
            Caminhei em direção ao meu filho, Elaine se aproximou, com medo de que eu o agredisse fisicamente, tomado pela ira em que me encontrava...
            No momento em que ia dizer algo, meu filho lançou-me um sorriso que nunca vi estampado em seu rosto. Logo em seguida, me abraçou chorando, colocando um objeto em minhas mãos...
            Fui surpreendido pela atitude de Marcos, que permaneceu em silêncio. Sentei-me no sofá e abri o envelope que me entregara. Minha expressão mudou de ira, para arrependimento e orgulho. Meus olhos vermelhos pela fúria, agora derramavam lágrimas incessantes. Olhei para meu filho que permanecia em silêncio. Aquele foi o silêncio mais ensurdecedor que meus olhos ouviram. Nem todo barulho irritante que nos atordoaram durante quatro longos anos foi tão forte quanto o silêncio que meu filho expressava naquele momento.
            Elaine não entendeu o que estava havendo. Pegou o objeto de minhas mãos e, assim como eu, caiu num choro incessante quando leu o que estava escrito na capa do CD onde havia nome da banda do meu filho impressa, com o selo da maior gravadora do país:
            “Para meus pais, pelo amor e compreensão durante os quatro anos em que os atormentei com meu barulho. Não chegaríamos aqui sem o apoio de vocês.”

 Uma quinta-feira repleta de música a todos. Seja para nossos ouvidos ou nossos olhos! E um belo final de semana repleto de amor.

5 comentários:

*Sa* sex set 30, 11:57:00 AM  

Que lindo!!!

Nossa amei esse texto! Mas ficou sem a bateria... rsrs

Adorei demais começar o dia internético com esse texto...

Marcia sáb out 01, 08:11:00 PM  

Oi Sa,

Os textos do Libério são apaixonantes rs.

Bjs.

Marli Carmen qui out 06, 04:55:00 PM  

Também gostei demais!!!!!

Mari Sampaio qui out 20, 10:21:00 AM  

Como sempre, lindo, tocante e maravilhoso! Seus textos sempre me deixam com essa sensação! Mais uma vez: Parabéns, Libério.

Beijos.

Blog Tijolinhos de Papel

Ana Luiza Rosa ter out 25, 06:29:00 PM  

Uma palavra para este texto: Tocante!
Caramba, é exatamente o que acontece muitas vezes em nossas vidas né? Pensamos que os sentidos servem para serem usados da forma para as quais nasceram, mas esquecemos muitas vezes, de que também devemos ouvir com os olhos, com a boca, e com as mãos.
Da mesma forma que também podemos ver com todos esses ditos.

beijo,
Aninha - Ofício dos Livros

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