Entrevista com o autor Giscard Farias Agra - A Invenção da Pré-história

Sobre o Autor:
Giscard Farias Agra Docente do curso de Direito, campus Santa Rita, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em História (UFPE), bacharel e licenciado em História (Universidade Federal de Campina Grande – UFCG) e bacharel em direito (Universidade Estadual da Paraíba – UEPB).


Giscard sua biografia é excelente o fato de ser mestre em História foi o que objetivou a escrever A Invenção da Pré-história?

Na verdade foi a prática de sala de aula que me levou à escrita do livro, mas que, com certeza, ele não teria sido possível se eu já não tivesse uma formação teórica, metodológica e crítica que só foi adquirida no Mestrado em História. “A invenção da Pré-História” surgiu como proposta de ensino da disciplina Pré-História que lecionei na graduação de História da Universidade Federal de Campina Grande (PB) durante os anos de 2008 e 2009. Minha angústia naquele momento se referia ao fato de, num curso de História, a disciplina Pré-História ser considerada uma disciplina menor, sem valor, não atraente nem para alunos, nem para professores, muito devido à maneira como a disciplina é conduzida na maior parte das faculdades brasileiras. Pré-História muitas vezes é ensinada em cursos de História como se ensinaria num curso de Arqueologia, o próprio discurso é um discurso arqueológico, preocupado em identificação de sedimentos, de eras geológicas, técnicas de preservação de fósseis, etc.


Não é um discurso que possamos ignorar, muito pelo contrário, a Arqueologia é um ramo do conhecimento indispensável para a construção disso que chamamos de Pré-História, mas não é o discurso que acho que deva ser ensinado numa faculdade de História. Enquanto arqueólogos têm suas preocupações metodológicas, nós, historiadores, temos as nossas. A minha, em “A invenção da Pré-História”, foi passear por outros discursos, como a arque-antropologia, a psicologia evolutiva, a linguística, a arte, o evolucionismo gradualista e, também, a arqueologia, para demonstrar como esses discursos proporcionaram e proporcionam novos dizeres e novos saberes sobre o “passado” do homem, desta maneira, construindo olhares e “pré-histórias” diferentes. E que isso não vem de longe, mas foi basicamente construído entre os séculos XIX e XX. Antes disso não havia Pré-História, não havia preocupação com as questões que irão ser discutidas mais à frente. A própria Terra não tinha sequer idade para que os estudiosos se preocupassem com épocas remotas como a suposta “Pré-História”.


Você também faz parte do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) é uma agência do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) destinada ao fomento da pesquisa científica e tecnológica e à formação de recursos humanos para a pesquisa no país. Sua história está diretamente ligada ao desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil contemporâneo), poderia falar um pouco a respeito?

As agências de fomento governamentais são muito importantes para nós, pesquisadores das humanidades, para que possamos realizar pesquisas nessa área que, é fato, ainda é vista no país como um ramo menor que o ramo tecnológico, mais voltado ao desenvolvimento material. Eu não faço parte do CNPq, mas já fui financiado por ele quando fui pesquisador PIBIC, em 2004, pela Universidade Federal de Campina Grande, enquanto fui financiado pela CAPES no meu mestrado, entre 2006 e 2007, pela Universidade Federal de Pernambuco. A assistência financeira de ambos foi indispensável naquele momento para custeio de viagens, livros, etc. No caso específico de “A invenção da Pré-História”, não houve o fomento de nenhum dos órgãos, já que o livro nasceu de um empreendimento pessoal que não estava ligado a uma pesquisa institucional.


Conte-nos um pouco como foi a idealização, pesquisas, e outros processos (se houveram) na criação do livro.

A pesquisa se desenvolveu em livros de diversos campos, como já afirmei anteriormente. De linguística, arte, história, arqueologia, antropologia, biologia evolutiva, filosofia, literatura etc. Como toda ela foi voltada inicialmente não à produção de um livro, mas à atividade de sala de aula, fiz uma seleção de alguns textos que trabalhassem temas atualmente desenvolvidos na discussão da Pré-História a partir de uma bibliografia atualizada, o que, em grande parte, levava-me à identificação de um momento crucial na Pré-História que teria sido a “Revolução Criativa do Paleolítico Superior”, onde o homem teria adquirido capacidade simbólica. Entretanto, se a bibliografia recente referia-se a tal momento, a bibliografia mais antiga frisava a “Revolução do Neolítico” como principal divisor de águas da Pré-História. A pesquisa, portanto, desenvolveu-se em torno de identificar o deslocamento discursivo que ocorreu há não mais que quarenta anos dentro do discurso arqueológico e que proporcionou a apropriação da “Pré-História” pelos diversos outros campos discursivos, como a arte e a linguística. Para isso, precisei pesquisar a linha discursiva presente nestes novos livros, bem como a linha dos livros mais antigos, inclusive, e perceber como cada um destes discursos responde a anseios de sua época, de seu período, aos modelos de produção de enunciados. Perceber, portanto, os conflitos em torno da enunciação da “verdade” que existiam no final do século XIX e início do século XX que propiciaram a invenção da “Revolução do Neolítico”, e perceber como esse cenário intelectual se alterou na década de 1970 para propiciar uma nova enunciação, como foi a da “Revolução do Paleolítico Superior”. Lembrando sempre que, como o conhecimento é metalinguístico, como apreendo a partir de Nietzsche, ambos os eventos se baseiam numa enunciação anterior, do século XIX, da existência de um período “pré-histórico” longo, informado pelo evolucionismo, seja na visão gradualista, seja na pontualista. No livro, portanto, tentei sistematizar tudo isso que preliminarmente desenvolvia ao longo de quatro meses com a graduação de História demonstrando como essas enunciações provêm de convenções, de cenários intelectuais que possibilitam uma certa produção do conhecimento e informam a base da qual se partir. De maneira geral, que tudo isto são eventos históricos, historicizáveis, portanto, e não verdades naturais.

Sabendo da dificuldade da maioria dos autores em relação a publicação dos seus livros, como foi esse caminho para você?

Foi árduo, com certeza. O texto foi escrito em 2009 e eu só consegui chegar à Dracaena em 2011. Passei quase dois anos sondando editoras, buscando alguma onde eu pudesse publicar este livro e que ele não ficasse tão somente emperrado por anos num longo processo que, quando finalmente saísse, já estivesse completamente desatualizado. A Dracaena, por sua vez, mostrou-se, desde o primeiro contato, extremamente responsável, atenciosa, profissional e – o que é tão importante quanto – rápida, sem pecar na qualidade. Depois do primeiro contato telefônico que tive com Léo Kades coloquei na cabeça que era pela Dracaena que “A invenção da Pré-História” viria à luz.

Gostaria de deixar um recado aos leitores?

Espero que ao adquirirem e lerem “A invenção da Pré-História”, este livro seja a fagulha a acender em todos novas maneiras de pensar, de perceber o mundo ao redor, de questioná-lo criticamente, não necessariamente que todos pensem iguais a mim e concordem com tudo o que está no livro, mas que invente maneiras próprias, oriundas de escolhas pessoais em busca da felicidade, e não de imposições enunciativas como muito vivemos ainda hoje.

A INVENÇÃO DA PRÉ-HISTÓRIA: a recente produção de um suposto passado remoto.

SINOPSE: A invenção da pré-história: a recente produção de um suposto passado remoto (AGRA, 2011) consiste em um livro que objetiva analisar os fios que teceram e construíram o que costumeiramente é conhecido como Pré-História. Analisam-se, desta maneira, os cenários intelectuais que permitiram a invenção do conceito “pré-histórico” e a significação de eventos caracterizadores desse período, na tentativa de desnaturalizar os enunciados elaborados pela ciência e instituídos enquanto verdades por meio das convenções científicas. Com este intento, observa-se que os modelos de produção que informavam a ciência de maneira geral e que haviam, no século XIX, inventado a pré-história e seus principais elementos, caracterizadores de uma suposta “Revolução do Neolítico” – a fixação territorial, o controle da agricultura e a domesticação de animais – são alterados, levando à produção de uma nova pré-história, mais voltada à analítica de aspectos culturais e simbólicos, preocupação que ressoa a partir do turbulento contexto da década de 60 do século XX, levando à invenção da “Revolução do Paleolítico Superior”, gênese da produção cultural, linguística, artística e religiosa, por meio da qual o homem teria exercido seu domínio não mais sobre a natureza externa, mas sobre a sua própria natureza interna, domesticando, por meio da cultura, o animal humano.

Quando li a sinopse desse livro e tratava-se de um assunto que particularmente gosto muito, convidei o autor para essa entrevista (que atendeu gentilmente) e acabou por relevar e aumentar ainda mais o meu interesse, pois como Giscard bem disse o pouco que aprendemos sobre a Pré-História é focado na Arqueologia e conhecê-la sobre outros aspectos será muito interessante.


Aguarde! Em breve.



2 comentários:

Nanda Meireles seg ago 01, 07:54:00 AM  

Uau! Nota-se a seriedade e entrega do autor à obra em suas respostas.
Apesar do gênero não ser um dos meus preferidos, fiquei intrigada quanto o desenrolar da história.

Beijos

Neiva Meriele seg ago 01, 04:21:00 PM  

Uau, autor sério esse, levei maior fé nele e adorei a capa. Muito tri a entrevista guria. Bjos

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