Anjos do Mal - Shannon Drake

Anjos do Mal
3° livro da série “Vampiros”

Quando os sonhos se tornam pesadelos, e o prazer vem das sombras...

Num luxuoso baile de carnaval em Veneza, bizarros acontecimentos aterrorizam a crítica literária Jordan Riley. À medida que as festividades se transformam num tumulto apavorante, ela é salva por um homem forte e poderoso, vestido numa estranha fantasia. Seriam os terríveis acontecimentos que Jordan testemunhou apenas parte de uma grotesca encenação teatral, um divertimento macabro, ou algo mais sinistro?...

De uma antiga igreja em Veneza a uma sociedade secreta em Nova Orleans, Jordan embarca numa viagem que transcorre no limiar da realidade. Seu misterioso salvador a persegue como uma sombra.A proximidade daquele homem a atormenta e provoca, despertando-lhe um anseio desconhecido e um desejo que a consome...


Prólogo

A lua reinava sozinha na noite escura. Esplendorosa, parecia lançar um olhar de zombaria sobre a terra. Apesar de que a visão dele à noite fosse excelente, esse luar o ajudava a ver melhor ainda.
Decidira vigiar a cidade ali do Campanário de São Marcos.

Observou as pessoas lá embaixo, voltou o olhar para a beleza do céu negro, e sentiu a tensão e a concentração aumentar. Era Carnaval em Veneza. Era a primeira noite de celebração.

A primeira noite dos grandes bailes... Terça-feira gorda. O delírio máximo. Eles atacarão hoje à noite.
Ruas, vielas e canais estavam tomados por centenas de pessoas com suas ricas fantasias e máscaras enigmáticas. Músicos, artistas, ricos e pobres, estavam todos ali para uma noite de brincadeiras. Havia um mundo tomado pelas sombras, apesar das luzes espalhadas pela cidade, e das lanternas que tantos carregavam.

Terça-feira gorda. A festa antes da Quaresma.

Sim, eles deviam estar ansiosos por aquela festa. E estariam ali àquela noite. Para se fartarem... Para saciarem a fome... A não ser que... Silenciosamente, com a graça de um predador, ele deixou o seu abrigo. E entrou na cidade...

Jordan Riley abriu as cortinas da janela de seu quarto no Hotel Danieli. Tinha a sorte de poder ver as águas do canal de São Marcos, visualizou as lanchas a vapor, as gôndolas e a multidão indo e vindo das docas. Logo adiante, a magnífica cúpula da igreja de Santa Maria della Salute. E, se inclinasse o corpo para fora da janela aberta, enxergaria, à sua direita, parte da Praça de São Marcos, um lugar inesquecível.

A noite estava tomada por risos e música. Por toda a parte havia camaradagem e alegria. A celebração antes da Quaresma podia ser bem conhecida e amada em outras grandes cidades também. No entanto, Jordan não acreditava que ninguém, em qualquer parte do mundo, soubesse celebrar o Carnaval da forma como os venezianos faziam.

Não importava o quanto os foliões usassem as mais exóticas fantasias, eram todos extremamente elegantes.

— Jordan, está pronta?

Ela se voltou e se deparou com Jared, seu primo. Se não soubesse que era ele, jamais o teria reconhecido. Ele viera fantasiado de dottore, uma fantasia muito popular ali. Pestes haviam atingido Veneza tantas vezes, que os médicos usavam uma máscara com um enorme nariz, usualmente uma espécie de bico; uma reminiscência de como se vestiam aqueles que haviam combatido os vapores fedorentos. As máscaras eram
elaboradas, assustadoras.

— Se estou pronta? Sim! Mal posso esperar. Está incrível lá fora!

Jordan estivera em Veneza várias vezes antes, jamais na época de Carnaval. Agora Jared e sua esposa, Cindy, a haviam convencido a acompanhá-los para o festival. Sentia-se um pouco sem jeito por estar com os dois sem ter um acompanhante.
Contudo, sabia falar um pouco de italiano e poderia se virar perfeitamente bem. Isso sem contar que muitos venezianos falavam inglês.

— Graças a Deus! Pensei que pretendia se enfiar em um buraco e não sair esta noite — o primo observou.

— Eu? De jeito algum! — Ela tinha alugado a sua fantasia na última hora.. Um traje da Renascença espetacular.

— Sua fantasia é bem bonita — elogiou Jared. — Faz você parecer mais alta.

— São os sapatos. — De salto muito alto, um sinal da vaidade feminina.

— Cuidado para não cair desta altura...

— Não fique aí caçoando apenas porque é alto demais.

— Jared era tão alto e ela tão baixinha. Mas ambos haviam  herdado os olhos verdes da avó. Isto e o apego por lugares desconhecidos, por cidades como Veneza, e todo o seu charme tão particular.

— Vai acabar esparramada no chão com esses sapatos, prima.

Jordan podia jurar que o primo estava sorrindo por detrás da máscara.

— Olá, vocês dois, vamos embora. Já é tarde!

Cindy, em um traje negro da era vitoriana, apareceu à porta.

Como Jared, ela também era alta.

— Jordan! Que sapatos espetaculares. Creio que esta noite as pessoas não vão pensar que você é minha filha.

— Cindy! Você também está determinada a me torturar?

— Eu? Claro que não, mas sou apenas cinco anos mais velha e vivem me perguntando se sou sua mãe.

— Vocês duas estão espetaculares. Serão as mais belas mulheres na festa. E agora, podemos ir? — Jared tratou de encerrar a conversa das duas.

Momentos depois, eles passavam pelo lobby do gracioso hotel. Todos os empregados ali usavam máscaras, e se cumprimentavam.

Era uma noite de diversão e sorrisos.

Deixaram o hotel e se misturaram à multidão em frente ao canal. Táxis marítimos, pequenos barcos a vapor e gôndolas faziam uma parada ali, e o lugar estava completamente congestionado.

— Senhoras, esperem aqui um minuto. — Agitando a capa, Jared se afastou.

Jordan e Cindy recuaram alguns passos, fugindo da maré de pessoas, e aguardaram enquanto Jared buscava um transporte para levá-los ao baile. Realizado anualmente, o baile acontecia em um palácio histórico, e era sempre o evento de maior prestígio da noite.

Como adorava tudo o que vinha da Itália, Jared trabalhava como representante de uma empresa de turismo americana ali em Veneza. Dividia seu tempo entre aquele país e os Estados Unidos e sabia falar italiano muito bem.

Pena que Jordan soubesse tão pouco da língua. Naquele momento, por exemplo, um homem parara perto dela, sorrira e falara qualquer coisa que ela não tinha entendido. Limitou-se a sorrir de volta, o homem bateu em seu chapéu num gesto de despedida e seguiu em frente.

— Vou ter de ficar de olho em você a noite inteira — Cindy observou. — Aquele malandro estava tentando dar em cima de você.

— Maldade sua. Como sabe a natureza de um desconhecido?

Cindy riu, balançando os longos cabelos loiros.

— Ele se vestia como um qualquer, Jordan, não percebeu?

— Não, vi a cauda e os pelos cinzentos sobre os ombros...

— Um malandro — Cindy repetiu. — Um rato da Renascença, mesmo assim um sujeito reles. Temos de tomar cuidado. Imagino a quantidade deles que não há por aí. Sem falar dos lobos. E você parece ser a presa ideal.

— Senhoras! — Jared chamou, adiantando-se na direção das duas. — Precisamos ir até a Praça de São Marcos. Lá pegaremos um transporte com mais facilidade.

O clima estava fresco e agradável, a cidade maravilhosamente viva. Luzes se refletiam na água do canal. Eram cores diferentes e fantásticas, formando um belo mosaico. As fantasias se mesclavam entre elaborados trajes de época com outras de animais. Pássaros exibiam uma incrível plumagem e os gatos, um pelo brilhante.

De súbito, Jordan sentiu como se alguém a observasse e levantou o olhar. O Leão de Veneza estava lá em cima de um alto pilar de mármore, encarando-a, para em seguida, olhar em volta, para a Basílica de São Marcos e o Palácio dos Doges.

À noite, as sombras pareciam dançar, como se fossem entidades reais, escondendo-se por detrás das gárgulas, das orgulhosas estátuas e de outras criaturas fantásticas, esculpidas naqueles prédios esplêndidos pelos maiores artistas de todos os tempos.

O sino da igreja ressoou na noite. Seguido por outros. Jared segurou Jordan pelo braço e a conduziu até o vaporetto, e logo estavam cortando as águas dos canais da cidade.

— Ah, ali está o nosso palácio!

Jordan tentou se lembrar de tudo o que ouvira sobre o evento daquela noite. O baile era oferecido por Nari, condessa della Trieste, uma mulher com ancestrais tão antigos quanto a própria cidade. Era muito rica, tendo se casado bem várias vezes. Seu único amor, no entanto, eram as artes e o Palazzo Trieste. Este era esplendoroso com seus arcos, arquitetura, trabalho em pedra e mármore. Uma construção planejada mais
para uma residência do que uma fortaleza. Lindos portões de ferro ofereciam entrada pelos canais.

No grande foyer, ao pé da escadaria de mármore, os três foram saudados pela condessa, uma mulher de pouca estatura e surpreendentemente bonita, vestida toda de branco, com imensas penas adornando seu traje e uma máscara emplumada. Manejava o adereço com naturalidade, acenando para as visitas, sorrindo e cumprimentando os recém-chegados.

— Jared, benvenuto! Cindy, ciao, bella!

Distribuiu beijos a todos eles, depois pegou as mãos de Jordan e a observou com maior atenção.

— Oh, a prima, Jared! Bella, bella, bella. Fala um pouco de italiano? Poco, eh? Grazie, bella, por ter vindo à minha pequena festa.

— Grazie mille — Jordan respondeu.

— Então fala italiano.

— Muito pouco, infelizmente.

— Ah, ainda assim, dance, alegre-se. — A condessa riu, seus olhos negros ainda atentos a Jared.

Jordan sentiu-se meio sem-graça, imaginando se a anfitriã não seria mais íntima do primo do que ele sugeria. Afastou logo tal pensamento; Jared e Cindy estavam muito apaixonados, formavam o casal perfeito.

— O bufê será servido lá em cima, e o champanhe aqui — ofereceu a condessa, estendendo a mão para pegar uma taça da bandeja de um garçom. — E a dança está em toda parte.

— Não vou deixá-la sozinha durante o jantar, prometo.

Preciso apenas encontrar alguns conhecidos... Negócios... — Jared comunicou a Jordan, enquanto entravam.

— Ele só se importa em abandonar você — Cindy brincou, provocando o marido.

— Você conhece todos, querida.

— Será que alguém reconhece as pessoas por aqui? —

Cindy balançou a cabeça, enquanto caminhavam até a mesa do bufê.

Jordan notou que as fantasias ali eram ainda mais requintadas e extravagantes do que as que vira na rua. Deviam ter custado milhares de dólares, com certeza. Ela, então, começou a se sentir malvestida. Muitas mulheres usavam joias verdadeiras. Seria capaz de jurar que o traje de uma delas brilhava com esmeraldas legítimas.

— Jordan, sinto muito, mas aquele pavão com o enorme leque é sra. Meroni. Preciso cumprimentá-la. Venha comigo...

— Cindy anunciou.

— Pode ir. Vou circular um pouco.

— Tome cuidado com os ratos.

— Se eu optar por lobos, vou me assegurar de que ao menos sejam muito ricos.

— E jovens — aconselhou Cindy. — Ou melhor, bem velhos para logo morrerem fazendo de você uma viúva abonada.

— Vou me lembrar disso.

Cindy sorriu e se afastou.

Ele a viu caminhando para a mesa do bufê.

Era pequenina e perfeita. Uma mulher com cabelos escuros e ondulados caindo pelos ombros, e usando agora um par de tranças, em concessão ao estilo renascentista de seu traje. Outras exibiam fantasias mais luxuosas, mas nenhuma se movia com elegância tão natural.

Como muitas das mulheres ali, ela segurava a máscara na mão. Por vezes a levava aos olhos, dava um gole em seu champanhe. Naquele momento estudava como segurar taça de bebida, a máscara e o pequeno camarão que pretendia comer.

Ele deixou o balcão, desceu as escadas sem tirar os olhos dela. Aproximou-se, abordando-a primeiro em italiano. Quando notou que ela ficara confusa, passou a falar em inglês:

— Boa noite. Perdoe a minha impertinência... — Abaixou a voz. — Suponho que deveríamos ser apresentados, mas como você parece estar enfrentando uma dificuldade, pensei em vir aqui ajudá-la. — Estendeu a mão, oferecendo-se para segurar a taça de champanhe, a máscara ou as duas coisas.

Jordan levantou o olhar, um leve sorriso nos lábios.

— Não tenho muita certeza se devo aceitar a sua ajuda. Fui alertada pela esposa de meu primo para tomar cuidado com os ratos e lobos e todos os predadores nesta noite.

— A não ser que fossem podres de ricos — ele murmurou, fazendo-a rir.

— Bem... — Olhou-o com mais atenção da cabeça aos pés.

— Você é um lobo.

— Um lobo? — ele disse com certo desprezo.

Jordan apontou para a fantasia. A máscara dele era de couro, com abertura para o nariz e dentes. Usava um manto negro, que cobria os pelos do peito.

— Talvez eu seja um lobo jovem, rico, quem sabe muito rico até. Arrisque-se. Dance comigo. Bem — ele emendou, pensativo —, coma o camarão, termine o seu champanhe, e então dance comigo.

— Será ...

— Viva perigosamente. Estamos em Veneza. É Carnaval.

Jordan sorriu. Estendeu-lhe a máscara, terminou de mastigar o seu camarão, tomou um gole de champanhe, e balançou a cabeça concordando.

— Farei o melhor que puder.

Em um minuto, estavam na pista de dança do terraço com vista para o canal. O luar, capturado nas águas, refletia os mascarados valsando. Jordan o alertara que não sabia dançar aquele tipo de música. Assim deixou-se levar e não se saiu mal.

— Você é muito alto — ela reclamou.

— E você pequenina demais. Mas vamos conseguir lidar com essa diferença de altura.

— Você não é italiano?

— Um lobo e nem mesmo italiano — admitiu ele.

— Americano?

— Eu diria que sou um cidadão do mundo. Você, claro, é americana.

— Eu poderia ser inglesa.

— De jeito algum.

— Bem, é verdade. — Todos reconheciam imediatamente os americanos. Antes até de abrirem a boca. — Sou de Charleston, Carolina do Sul — ela admitiu. — E você?

— No momento, a Itália é o meu lar fora de casa. Há poucos povos hospitaleiros como os italianos.

— Onde você nasceu? — Os olhos verdes de Jordan brilharam de curiosidade.

Ele sorriu, decidindo não contar nada. Havia uma pequena razão para agir daquele jeito. Depois da meia noite... Na verdade, não deveriam estar dançando. Nem mesmo conversando. O ataque estava para acontecer. Mas ela o atraíra, despertara os seus sentidos, talvez os instintos. Ao que tudo indicava, cativara sua mente. E quem sabe a alma!

— Senhor?... Perdoe-me, sr. Lobo? Onde foi que nasceu?

— Longe daqui, muito longe. — A resposta foi evasiva.

De repente, alguém bateu de leve no ombro dele.

— Signore, per piacere...

Um cavalheiro vitoriano, com certeza inglês, o interrompera querendo dançar com Jordan.

Ele cedeu com um gesto de cabeça.

— Tome cuidado, americana — advertiu.

Jordan sorriu, mas com um ar de decepção, ele notou. Ou era o que desejaria que ela tivesse sentido.

Observou-a se afastar, dançando.

Os pés de Jordan doíam. Mesmo acostumada a andar com saltos altos. Claro, não tão altos. E a noite estava muito interessante.

Primeiro dançara com o lobo. Uma figura enigmática, alta e tão charmosa. Pena não ter a menor ideia de sua real aparência, pois ele usava máscara. No entanto, sua altura era algo difícil de esconder. Será que o reconheceria se o encontrasse sem a fantasia? Notaria a voz, pensou. Sem contar o perfume agradável, um aroma com um nítido toque sensual...

Depois do lobo, o inglês. Então um arlequim. Este elogiara seu traje, os olhos, os cabelos e a linha do
pescoço.

Ela rira, mas procurara manter-se à distância.

— O senhor é efusivo demais — observara.

— Ah, nunca! Que pele adoravelmente branca. E como suas veias pulsam visíveis...

Exatamente quando ela começava a se sentir desconfortável, um anjo da morte vestido de couro e seda a tirou do arlequim. Este era espanhol, alto e atraente. Comentou da sua esplêndida energia, comparando-a a um raio de luz que fluía de seu corpo.

Jordan agradeceu. As feições dele estavam cobertas por forte maquiagem, mas os olhos eram escuros e sensuais.

Cindy, você tem razão, há predadores por toda a parte.

Uma tentação...

Enquanto falavam, um mascarado usando calções justos e uma jaqueta surgiu no terraço, tocando um sino.

Falou em italiano, no princípio, mas foi traduzindo o que dizia, para ser entendido por todos os convidados do baile.

— Ouçam, ouçam, o espetáculo está começando! Há muito tempo, Odo, o conde de Castello, gerou uma filha tão bela que todos da nobreza o consideravam rico. Mas Odo lamentava a falta de um herdeiro. Eliminou então a sua esposa...

O mascarado puxou uma senhora de meia idade, perguntando-lhe se queria participar da encenação. Ela concordou, rindo.

— Então — o mascarado continuou —, ele sacudiu a pobre criatura e lhe deu o beijo da morte!

A impressão era de que o mascarado murmurava alguma coisa para a senhora. O corpo dela ficou mole, e ele a deixou cair no chão.

— Então, Odo se casou novamente. Mas esta esposa, também, falhou em lhe dar um filho. — No meio dos convidados, ele encontrou outra matrona que alegremente concordou em interpretar a segunda esposa do conde. Ele lhe murmurou algo, ela amoleceu o corpo e escorregou até um chão.

— E mais uma vez, Odo arranjou outra esposa!

Desta vez a escolhida foi uma dama que já ria antes mesmo de ser convidada. O processo se repetiu.

— Ora, ele teve mais esposas que o Barba-Azul! — O mascarado dançou pela sala, escolhendo uma mulher após a outra. Então ele parou, sacudindo a cabeça, dramaticamente. — Mas ainda assim, nenhuma mulher lhe deu um filho! Por isso, ele, então, ofereceu a sua belíssima filha.

O mascarado foi passeando por entre os convidados. Jordan reparou que ele também era alto e poderoso. Os músculos delineados pela roupa justa. De repente, notou que o ator vinha em sua direção e recuou.

— Americana — ela declarou.

— Não importa — Ele estendeu a mão, e Jordan começou a menear a cabeça, mas ele já a segurava.

— Assim ele ofereceu a sua alma ao próprio diabo para que encontrasse um homem que se tornaria marido de sua filha,

e continuasse com o nome de sua família. Ah! E onde está o diabo?

Enquanto o mascarado procurava o diabo, os convidados riam.

Foi quando Jordan notou algo escorrendo da cabeça da mulher que interpretara a primeira mulher do conde.

Sangue. Arregalou os olhos e levou a mão à boca, e começou a gritar. O mascarado viu a reação dela, e a segurou. Jordan lutou querendo se livrar, mas a força que a prendia era mais poderosa. Horrorizada, viu o salão subitamente ficar tomado por... Bestas. Demônios. Talvez estivesse vendo coisas, com certeza.

Mulheres gritavam. Todos pareciam ter dentes muito afiados.

— Largue-me!

Jordan lutou com desespero, chutando e berrando. Encontrou-se encurralada em um canto do terraço, barrada pelo mascarado, que agora tinha sangue no corpo.

Subitamente alguém agarrou o agressor, livrando-a. Foi então que ela se viu diante dos olhos de um lobo.

O mascarado grunhiu, murmurando palavras em uma língua desconhecida. O lobo respondeu e os dois se atacaram.

Jordan tornou a gritar quando a força de um golpe na cabeça do mascarado quebrou-lhe o pescoço.

Tudo parecia ter enlouquecido no elegante palácio. Jordan deu um passo para trás, abismada. Havia bestas
na casa toda. Bestas! Criaturas usando todo tipo de fantasia. Animais com longos dentes, agora borrados de sangue. Ainda em desespero, agora porque o lobo a segurava.

Ele a tirou do terraço e entraram na neblina que se formara. Era como cair em um buraco negro...

Ele a colocou em um barco, e ordenou ao remador:

— Reme! Rápido!

O sujeito não pensou duas vezes. O lobo saltou do barco para a calçada e lhes deu as costas, sumindo na neblina da noite.

Capítulo I

Na manhã seguinte, a claridade era excelente. Nenhuma neblina, nem sinal de maldade no ar. Somente a beleza de um lindo dia de inverno.

Jared buscou a sua paciência.

— Tudo isso é por causa de Steven! Tudo não passou de um espetáculo provocante, claro, mas você continua insistindo em sua versão.

Jordan se empertigou. Abaixou o olhar e contou até dez. Steven tinha morrido havia um ano. Ela aceitara o fato. Quando da morte dele, sentira-se devastada, e tivera o seu período de mágoa e raiva, mas jamais fora paranóica. Lançou um olhar glacial para o primo.

— Isto não tem nada a ver com Steven! Absolutamente nada! Tem a ver com a noite passada.

— Jordan, entenda uma coisa, querida. Você se enganou —  Jared insistiu, procurando se controlar. — No começo, entendi a sua reação. Você estava assustada, mas foi apenas um espetáculo.

Se persistir nisso, vai acabar destruindo o meu relacionamento com a condessa. Arruinar minha profissão. Acredite em mim... a condessa é uma mulher importante e responsável. Gasta uma verdadeira fortuna com caridade, adora festas, mesmo as mais assustadoras. Não cultua rito macabro algum.

Jordan tinha de admitir que naquela manhã, sentada no restaurante do hotel, repleto de garçons educados e alegres em uniformes normais, tentara aceitar a versão que insistiam que ela acreditasse. Mas era difícil.

Até mesmo a polícia perdera a paciência com ela na noite anterior. Como uma renomada crítica literária, ela alguns livros para ler durante as férias. Não só livros, mas também material para ser revisado, e dois manuscritos, sendo um de ficção e o outro não. Um deles havia sido escrito por um produtor de Hollywood. Este tendo sido o responsável por levar às telas os filmes de terror mais populares das da última década.

Ela ouvira todas as explicações. Assistira a um espetáculo, nada mais. Apenas um espetáculo, haviam lhe dito. Pois, sim! E Jared estava convencido de que seu relacionamento com a condessa era a chave de tudo o que acontecia em Veneza, de bom ou de ruim. Nada parecia ocorrer ali sem o conhecimento ou cooperação dessa mulher. Assim o primo jamais a apoiaria em qualquer crítica que ela fizesse contra um show mesmo
que doentio.

— Jared, você está errado. Muito errado. Não estou me deixando levar pela minha imaginação. Não acredito em fantasmas, nem em entidade alguma. Contudo, sei que coisas ruins acontecem. E há quem acredite no sobrenatural. Preste atenção e lembre-se de uma coisa, tudo isso vem sendo documentado.

Antoine Leger, por exemplo, era um canibal e bebia sangue. Morreu na guilhotina em 1824. O qual foi o crime dele?

Escondia-se na floresta, esperando por suas vítimas. Atacava jovens, estuprava as pobrezinhas, depois as matava, bebia seu sangue e comia seus corações.

Cindy não se conteve e entrou na conversa.

— Você anda lendo livros demais. São apenas histórias.

— Não de ficção! — protestou Jordan. — Já disse que aquele homem era real!

Jared colocou a xícara sobre o pires com nítida impaciência.

— Jordan...

— Não pode sequer considerar a possibilidade de que alguma coisa aconteceu à noite passada?

Ela sabia que estava pressionando demais o primo, mas apesar de todas as explicações que escutara, apesar da manhã bonita e agradável e estarem em Veneza, não conseguia deixar o assunto simplesmente de lado.

Perto dela, pessoas tomavam seus cafés, riam, conversavam e liam jornais com naturalidade. Como esquecer a cena grotesca que presenciara? Tudo tinha acontecido tão depressa...

De alguma forma, ela conseguira que o remador entendesse que deveria levá-la a um posto policial. Falara com um policial atencioso, e ele lhe assegurara de que a situação seria imediatamente investigada, mesmo não parecendo acreditar muito na história, depois que soubera de tudo o que ocorrera no palácio da Condessa de Trieste.

Os policiais receberam também Jared, Cindy e a condessa. Esta achara natural a reação de Jordan, já que era americana. O primo, porém, agira como se fosse um irmão mais velho, preocupado com o estado de pânico que ela se encontrava.

Explicara com voz gentil que ela se enganara, pois assistira apenas a um espetáculo carnavalesco. Nada de criminoso havia acontecido no palácio. Afirmara também que não soubera com antecedência sobre o espetáculo assustador. Garantira que tinha sido natural que Jordan se apavorasse daquele jeito.

Jordan, contudo, tinha insistido em sua versão. Tentara convencer a condessa de que alguns de seus convidados eram loucos, e que talvez ela não tivesse ideia do que acontecera em sua própria festa, mas assassinos tinham estado lá. A condessa sacudira sua bela cabeça com tristeza. O oficial pigarreara, e dissera a Jordan que eles haviam dado uma busca no palácio e haviam encontrado apenas convidados fantasiados, alguns poucos usando trajes com sangue de mentira, todos arrependidos por terem-na assustado de tal forma.

— Mas eu estou lhes dizendo, vi pessoas morrerem. Voltem lá, eles devem ter limpado tudo. Não sei muito sobre procedimento policial, mas talvez se usassem luminol... Aquele líquido que revela sinal de sangue...

A condessa, então, se irritara, pois começara a falar rapidamente em italiano com os policiais. Depois se voltara novamente para ela.

— Minha querida, como é a prima de Jared, eu a perdoo por tal afronta, mas deve esquecer todos esses filmes tolos que vocês americanos assistem, e aceitar que nós também temos senso de humor e gostamos do macabro. Jared me contou, é claro, sobre o seu passado, por isso, minha criança, eu entendo a sua reação. Meu palácio continua aberto para você. Procure ser racional sobre tudo isto.

— Precisamos deixar a condessa voltar para casa — Jared dissera com firmeza.

Antes que Jordan pudesse continuar a protestar, o policial estava se desculpando com a condessa e conduzindo-a até a rua. A condessa a beijara no rosto, insistindo para que ela aparecesse a qualquer hora.

Jordan ainda tentara convencer os policiais depois da partida da condessa, mas a paciência deles havia se esgotado.

— Quem é esse homem vestido de lobo que a tirou do palácio?

— Jared quis saber.

— Ele saltou comigo da sacada e então... desapareceu no meio do nevoeiro.

Todos a encararam como se tivesse perdido a razão. Sim, pobre Jordan. Talvez precisasse ser internada em um sanatório de loucos.

De volta ao hotel, Cindy conseguira que servissem chá para Jordan e insistira em passar a noite em seu quarto. O suspiro de impaciência de Jared a tinha levado a recusar. Dormira sob o efeito de um calmante que Cindy, por certo, colocara no chá.

E sonhara ter acordado, e que havia um enorme lobo à sua janela. Agora, ali no restaurante, tentou colocar essas lembranças de lado. O primo já estava cansado daquela história.

— Jordan, estou lhe implorando. Você tem de parar com isso. Essas são pessoas com quem trabalho. A condessa é muito importante para o meu trabalho, minha posição aqui na Itália, para minha carreira e para minha vida. Se continuar com essa sua história maluca, vai me atrapalhar muito. Por favor, entenda que foi uma festa de máscaras, muitas fantasias, uma casa mal-assombrada, com efeitos especiais. Esqueça disso
tudo. Toda Veneza está falando sobre o caso.

— Jared, estou dizendo que...

— E a polícia já explicou. A condessa deixou a festa para ir falar com você. Todos tentaram explicar o acontecido, mas você se recusa a acreditar.

— Se você estivesse lá...

Irritado, ele se levantou, jogando o guardanapo sobre a mesa.

— Tenho de ir agora, Jordan. Preciso remediar as coisas antes que você me arruíne a vida.

— Você tem de entender que está colocando o emprego de Jared em risco, afinal ele é amigo dessas pessoas. A condessa é muito importante para o trabalho dele. — suplicou Cindy.

— Honestamente, querida, sei que você se assustou, mas já lhe explicaram o que houve.

Jordan suspirou. Não tentaria convencer Cindy de que havia estranhas criaturas rondando Veneza. Talvez ela estivesse mesmo exagerando. Quem sabe fossem seus livros. Afinal, o sol estava brilhando. Era uma linda manhã, especialmente para um dia de inverno.

Bom, chega de café. É hora de dar uma volta e ficar sozinha, pensou, levantando-se

— Jordan, espere, onde está indo?

— Não se preocupe. Não vou até a polícia de novo.

Quero apenas passear pela praça.

— Não sei se deveria sair por aí sem companhia. — Cindy franziu a testa em sinal de preocupação.

— Por quê? Já me disseram que não existem monstros por aqui. Que tudo foi obra de minha imaginação. Um show, não foi?

— Mas você está perturbada...

— Se for o caso, é melhor que eu supere.

— Jordan, onde quer que esteja indo, posso ir com você...

— Preciso caminhar, Cindy. Sozinha.

Cindy parecia tão abalada, que, por um momento, Jordan se esqueceu um pouco do medo e da raiva que estava sentindo de Jared.

— Estou bem, é verdade. Vou dar uma olhada nas vitrines das joalherias.

— Podemos comprar joias fora da praça. Você não vai encontrar nada a não ser preços para turistas. Eu a levarei a alguns lugares...

— Cindy, eu a encontrarei mais tarde.

— Não se esqueça de que vamos ao baile dos artistas nesta noite.

— Não se preocupe. — Jordan saiu do restaurante e preferiu descer as escadas do hotel a esperar o elevador. No andar térreo, havia uma grande movimentação. As festas em Veneza durariam ainda uma semana. Ela abriu caminho por entre a multidão e subitamente parou. Era como se estivesse sendo observada. Voltou-se, irritada consigo mesma, esperando que a sensação não durasse o dia inteiro.

Estranhou, com certo alívio, ao perceber que, de fato, alguém a encarava abertamente. Uma mulher jovem e atraente olhava para ela e murmurava alguma coisa para um homem mais velho a seu lado. Quando notou que ela havia percebido, em vez de disfarçar, a mulher veio até ela.

Ao se aproximar, a mulher não era tão jovem quanto parecera. Devia beirar os quarenta anos. Magra, loira e cabelos bem curtos. Sorriu e estendeu a Jordan a mão cheia de anéis.

— Como vai, srta. Riley. Sou Tiff Henley, uma conterrânea sua.—

Como vai? Sim, sou Jordan Riley, mas... — Jordan aceitou a mão.

— Não nos encontramos a noite passada, mas estávamos no mesmo baile. Fico feliz que esteja bem. Causou um tumulto e tanto.

Jordan sentiu o rubor cobrir seu rosto.

— Lamento. Não vi você e...

— Creio que você se encontrava no segundo andar durante o espetáculo, enquanto estávamos jantando e dançando no primeiro. Não assisti ao show, mas todos sabem que a condessa é conhecida por suas extravagâncias. Está tudo bem agora?

— Suponho que causei uma confusão. Mas parecia tão real

— Jordan justificou. A mulher parecia medi-la. Por causa de Jared, ela esforçou-se para não reagir.

— Você é escritora? — Tiff Henley perguntou.

— Sou crítica de livros. E você?... — indagou Jordan.

— Digamos que eu seja apenas rica. Gostaria de convidá-la a tomar café comigo uma hora dessas. — Tiff sorriu.

— Claro, adoraria isso — Jordan aceitou, simpatizando com a outra.

— Talvez amanhã?

— Para mim está ótimo. Você está hospedada neste hotel?

— Não, estou aqui com um amigo. — Tiff apontou para o homem com quem conversava, antes de encontrar-se com Jordan. — Ele precisa de uma fantasia para o baile dos artistas nesta noite. Você vai?

— Sim, creio que sim.

— Tenho certeza de que vai se divertir. As entradas são baratas, a comida mais ou menos. As bebidas são fortes.

— Eu a verei lá, então.

— Suponho que não vai me ver, já que estarei fantasiada, claro. Mas vamos nos encontrar. Aluguei um palácio perto da ilha. É um lugar fabuloso que pertenceu à família dos doges no passado. Se quiser, podemos tomar o nosso café por lá. O lugar tem história, fantasmas, escândalos, e tudo o mais. Oh,
lamento, não quero deixá-la assustada ou coisa assim...

— Não se preocupe. Não me apavoro tão facilmente.

— Ótimo! — Tiff sorriu. — Não se deixe perturbar com os comentários de ontem. O povo fala de mim o tempo todo, e tenho sobrevivido.

Antes que Jordan pudesse responder, Tiff voltou para o lado do amigo. Jordan se surpreendeu por se sentir bem melhor depois daquela conversa. Sorriu e se despediu de sua mais nova amiga.

Atravessando a ponte que havia em frente ao hotel, parou para contemplar a famosa Ponte dos Suspiros. Uma gôndola passou levando um casal, embalados pela música romântica, entoada pelo gondoleiro.

A Praça São Marcos estava cheia, muitos mascarados. Anônimos... esta era a chave, ela pensou. Era fácil vir ali, usar uma máscara, misturar-se na multidão e...

O pensamento lhe trouxe de volta o mal-estar. Na verdade, não reconheceria ninguém que estivera no baile da noite anterior.

Com exceção da condessa, claro. Mas os outros poderiam estar ali, na mesma praça, e ela não saberia.
Passando por uma vitrine que exibia manequins, ela, subitamente, parou estarrecida.

Por um momento...

Não. Era apenas um boneco. Por um momento, pensara estar vendo o rosto de Steven em um dos manequins. O coração acelerou. Talvez Jared estivesse certo. Andava vendo coisas.

As feições do boneco eram muito semelhantes às de Steven. Os olhos haviam sido pintados na cor de amêndoas; o cabelo tinha a mesma cor, o tamanho do corpo era correspondente ao dele.

Sentiu a tristeza voltar. Um ano não era tanto tempo assim. Steven entrara em sua vida e pouco depois já correspondia aos seus sentimentos. Ele era charmoso, inteligente... nobre. Talvez tivesse errado ao escolher a profissão de policial, pois confiava demais nas pessoas. Apesar de odiar a violência, ele tinha entrado para o Departamento de Homicídios. Era um homem que acreditava na reabilitação, e era completamente contra a pena de morte. Acreditava que os suspeitos deviam ser pegos vivos.

E isso lhe custara a própria vida.

Jordan passara pelos estágios da mágoa, negação, raiva e dor, mas continuara com a mente sã. Por fim, entrara em um estágio de aceitação. Em nenhum momento perdera a razão. Bem... talvez tivesse. Riu com amargura. Afinal, agora estava vendo as feições de Steven em um manequim de uma vitrine.

Ainda sentia a falta dele, porém seguira com sua vida. Steven morrera sob circunstâncias cruéis, e ela seria uma tola se esquecesse que coisas horríveis acontecem. Uma brisa suave e fresca levantou seus cabelos. Imaginou se a mesma não pudesse levar o passado de sua mente. Ela amava a Itália, adorava Veneza, e não iria permitir que a condessa lhe estragasse as férias.

Afastou o olhar da vitrine e continuou a andar. De repente, voltou a se sentir vigiada. Teve a sensação de que alguém estava bem a seu lado. Percebeu um incômodo sussurro, frio e fétido. Era como se dedos gelados lhe tocassem no ombro.

2 comentários:

DAN sex jun 25, 09:59:00 PM  

Oi, criei dois selinhos, depois passa lá no blog e dê uma olhada, se quiser pegar fique à vontade, fiz para todos que estão envolvidos de alguma forma com meu blog, ah caso resolva pegá-los por favor diga que fui eu q fiz, bj

http://danfalandodelivros.blogspot.com/2010/06/criei-dois-selinhos.html

Marcia qui jul 01, 03:16:00 PM  

Oi Dan minha internet está um caos mal consigo ficar 5 minutos mas assim q td ficar em ordem quero sim...vou lá pegar e falo com muito prazer que foi vc que fez...
Bjs e obrigada pelo carinho!!!!

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